sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Política, media, redes sociais e os cegos ( III)

 Era assim que dantes as pessoas  comuns escreviam no espaço consignado aos leitores dos jornais:

Exmo Sr Director

Deixe-me começar  esta humílisima  epístola por felicitar o jornal que V.Exa. superiormente  dirige. Que Deus lhe dê muitos e bons anos nessa hercúlea  e gloriosa tarefa.
O assunto que me leva a incomodar V.Exa ,  e a partilhá-lo com os seus leitores, é o seguinte : na minha rua existe há seis meses uma canalização rota que blá blá blá..... traz grades incómodos  aomoradores blá blá .................


Agradeço, penhorado, a atenção de V.Exa,
Anastácio Velinha

Bem antes de a maré twitter virar ( das primaveras árabes para o Trump), as caixas de comentários dos jornais online já eram  o  alvo : lixo, baixaria, vazadouro, não se admite, fechem essa gaita etc.
 Temos, portanto, que o problema não é uma técnica  específica, ( o twitter é diferente das caixas de comentários dos jornais) , mas a titularidade  de um novo espaço comunicacional.


Podemos falar  de ampliação, ou de ligação directa, mas também podemos usar o conceito que  Manchev aplica à  condição sobre-estética: uma totalização privativa. Significa isto um campo sensível capaz de reagir a todos os estimulos, o sonho de Fukuyama , no qual o lifestyle se sobrepõe às velhas identificações  colectivas, políticas, que organizavam o mundo. Manchev considera isto  um snobismo  em que  a vida fica reduzida  a uma mercadoria através  de modos de  troca, produção  e controlo, que  impõem reacções imediatas a estímulos estéticos que, por sua vez,geram mais reacções  Um campo animal, um sentido aistético, já não da arte, mas, neste caso, da comunicação.

Simplificando, a opinião política aberta a todos, em tempo real e sem mediação das velhas elites é o sonho , sim, mas não o de Fukuyama: o dos anarquistas. Zizek, pelo seu lado, já desdenha  dos Indignados  espanhóis e dos manifestantes gregos: 


As pessoas, coitadas:



segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Talvez

Está pronto o que pode ser mais um livro. Não, não é o manual de autodestruição. É sobre mulheres, as que morrem que nem tordos. Se sempre houver edição dou-vos notícia.

sábado, 26 de novembro de 2016

Política, media, redes sociais e os cegos ( II)

Leiam isto. Lembram-se das primaveras árabes? Vejam como o mesmo jornal falava de uma rede social em 2011. O que mudou? Até um morto responde. Aliás , só um morto pode jsutificar que baste  um Trump para mudar toda uma teoria  sobre redes sociais.
A autora é muito clara na sua confusão:

Em vez disso — e tal como acontece com todas as tecnologias — as redes sociais são ferramentas que podem enriquecer os processos democráticos, pois ajudam a dar voz aos que não a têm, mas que, por outro, são uma plataforma excelente para os populistas disseminarem a sua mensagem de forma muito eficaz. A lua-de-mel das redes sociais acabou.

A confusão assenta na categorização moral de uma tecnologia. Ao endeusamento segue-se  a reprimenda. Aqui já nem interessa que o motivo seja o de sempre ( elegeram um tipo de quem os departamentos universitários não gostam), antes a própria categorização.

A expressão popular, no lavadouro municipal ou  no twitter,  não é um valor moral em si. A tecnologia que amplia essa expressão também não pode, logicamente, constituir uma categoria moral. 

( cont)

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

O cu e as calças

SIC-N, antes das 20.00h. José Pedro Tavares, enviado à Turquia. Depois de reconhecer os milhares  de prisões de jornalistas (colegas dele) , advogados, professores etc, termina comentando a resolução do PE sobre a Turquia: isto vem numa altura em que a  Europa vive uma onda ( penso que foi esta a expressão)  de xenofobia e islamofobia.
 A única onda que a Europa tem tido é de ataques letais e ajuda a refugiados ( pese a Hungria) , mas devia bastar a prisão e perseguição  psicóticas de jornalistas colegas dele. Nada chega para esta gente.

Nauseabundo

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Política, media, redes sociais e os cegos ( I)

Toda a  mudança tecnológica implica transformação social. Isto é uma lei de bronze que, quando ensinava psicologia social, desafiava os meus alunos a contrariar. O prémio era de 500 euros. É delicioso que tanto politólogo, colunista , sociólogo e analista só tenham isto para dizer sobre política e redes sociais: "É uma vergonha, pá".
 É delicioso, mas não nos deve espantar. Quando alguém justifica a ascenção de um político através de eleições, há sempre o coro dos  distraídos: "Hitler também chegou ao poder através de eleições em 1933". Por acaso não houve eleições  nenhumas em 1933, por acaso o partido nazi perdeu votos e lugares em 1932, por acaso foi nomeado  porque  alguns amedrontaram-se  e porque a alta finança alemã queria ordem nos vermelhos. Seja como seja, a palavra  do povo é uma estucha...

O essencialismo reside na representação que, em cada época ou lugar , o poder de nomear  desenha. Tem o poder da palavra, de dizer como as coisas são.
Em Cuba não são necessárias eleições porque toda a gente ( o PC cubano) sabe o que o povo quer. Lassale era ainda  mais pragmático nos seus conselhos a Bismarck:  as massas querem é recompensas materiai: dê-me o sufrágio universal e eu dou-lhe um milhão de votos.


Se nada disto é novo, como é possível o estupor diante do efeito das redes sociais? Como é possível o ar compungido com que se queixam de agora toda  a gente ter opinião sobre assuntos complexos? Claro que  problema não é o homem  da rua agora ter opinião nem sequer  o de poder exprimi-la. É poder ter e exprimir em condições de recepção iguais aos dos dono da representação. Vai ficar cada vez mais difícil ser cubano.

( cont.)

domingo, 16 de outubro de 2016

Praxe ( II): UBI, Outubro 2016:

Esta rapariga  está comigo em apoio terapêutico, conheço-a bem. Passou um calvário com cirurgias e um ano de fisioterapia  ( um problema osteoarticular).
Texto no original:

( ela mudou de ideias, não quer o texto publicado)

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Praxe

Dois pontos que não costumam ser vistos com deve ser:

a) Quando entrei na faculdade ( não cheguei a Coimbra porque sou de Coimbra)   já tinha regressado a tradição académica, mas a  nova praxe dava os primeiros passos.
 Lembro-me de certa  vez estar no bar da faculdade com o Emídio Guerreiro ( hoje político e ex sec) e o Pimenta. Chegaram uns trajados que queriam não sei o quê lá das merdas deles. Levantámo-nos, rimos-nos e aconselhámo-los a meter o rabo entre as pernas. Assim fizeram.
Ou seja, a praxe de hoje funciona porque a grande maioria dos caloiros querem que funcione. É uma merda, eu sei, mas as merdas existem.

2) E funciona por dois motivos:

2.1) Os miúdos que chegam à fac são os bem comportados. Assimilaram uma dúzia de anos de indigência de espírito. Camus e Vaneigem são proibidos. A filosofia  e a literatura que lhes ensinaram prepararam-nos para habitar a lata de conservas em que os meteram. Os burocratas do ministério, mais os seus proles ( os prof), habituaram os miúdos  a desejar o controlo académico. Não é por acaso que a revolta e a indisciplina só se expressam nas bebedeiras instantâneas antes da meia-noite e a dias certos.
No meu tempo o sistema tolerava  insubordinados como eu e muitos.  Regulávamos a coisa.

2.2) A entrada para a  fac corresponde  ao orgasmo da mobilidade social. A grande massa é filha dos que nunca conseguiram estudar. A alegria com que aderem à merda da praxe é uma pena no chapéu, nunca  um sacrifício. Os doutores começam por ser caloiros e os caloiros são praxados.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Vila do Conde

- Jorge Jesus, como explicar o que aconteceu hoje?

 - Explicar? Explicar? Na há nada a explicar. Esta equipa joga como eu quero, joga com as minhas ideias. O que fez no campo  aqui do Rio Ave, que é muita difícil, atenção, não é para qualquer um. 

- Ainda assim, o resultado ao intervalo foi uma supresa, não?

- Surpresa? Surpresa para vocês, que só vêem isto de fora. Foi tudo planeado, as minhas equipas executam as minhas ideias ao detalhe.  Ou você julga que aquele salão de baile do nosso lado esquerdo da defesa foi um acaso? Julga que foi o Bruno César que  acordou um dia  e resolveu adaptar-se a defesa esquerdo?

- A defesa cometeu erros terríveis...

-Aqui no Sporting somos um grupo muita unido. Quando se perde não é só culpa de um  jogador: é dos onze mais dos suplentes que entraram. 

- Pode ter havido algum deslumbramento depois de Madrid?

- Boa pergunta essa, eh eh eh , não tinha pensado nisso. Pode, pode. Eu dei o exemplo  pondo os pés bem chão e até disse, veja ,  que eu era só  o maior de Portugal. Não me meti a dizer que era o maior da Europa! Agora com certeza alguns jogadores deu-lhes para a farronca.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Queimar navios

Enquanto uns patuscos  discutem  o burkini como uma questão de moda e de corpo feminino ( juro, li de relance no Expresso ), alguns franceses já vão muito à frente. Et pour cause:
Il ne s’agit pas de la radicalisation de l’islam, mais de l’islamisation de la radicalité.»

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Aperitivo filipino

O Bispo Brent apresentou, em 1904, em Manila, o seu plano para a erradicação total da droga. Três fases:

a)Manutenção do monopólio ( que Madrid tinha instituído) durante três anos com venda exclusiva a chineses.

b) Redução gradual das rações de ópio e encerramento progressivo dos dens.

c) Excepções apenas para fins terapêuticos: a desabituação em hospitais.

Em 1908 o plano foi finalmente cumprido, apesar da oposição do governador Taft ( que veio  a ser presidente dos EUA). A primeira proibição integral do comércio e uso do ópio estava consumada. A História, como todos sabemos, encarregou-se de  mandar às urtigas a eficiência da coisa. De nada serviu o aviso feito pelo presidente Lincoln, pouco mais de meio século antes: quando proibimos deixamos de saber quem consome, o que consome e quanto consome.
A mensagem que a experiência filipina enviou foi cristalina: a proibição como única forma de controlo, a lei como garantia da proibição. As conferências internacionais de Xangai ( 1909) e da Haia ( 1912) confirmaram a nova filosofia. O Ocidente, através da América, iniciava a war on drugs.


O que está  acontecer agora nas Filipinas foi o que aconteceu na China de Mao, mas o textinho olvida que os reincidentes eram executados. Duvido que na altura tenha levantado tanta indignação entre  os libertários: costumam ser selectivos nas indignações.
Com mais tempo, uma previsão  do futuro da actual  ravage filipina .